As ruínas do futuro

“Os homens crescem sobre as ruínas de si próprios. Essa coisa temível a que chamamos, com toda a leviandade, “pensar na vida”, não é mais que uma visita a uma escavação arqueológica. Visita a ruínas, mais ou menos obscuras, saqueadas ou protegidas, dependendo do que sente o visitante quando se olha ao espelho. Essa viagem ao passado, à memória e ao que nós próprios fomos pode até encher-nos de alegria, mas será sempre uma decoberta da erosão provocada pela passagem do tempo. Será sempre aceitar a decadência”.
“Ao olhar para uma fotografia do meu crânio tirada por um aparelho de ressonância magnética, não posso ver senão ruínas. Como se aquela foto tivesse saído de uma máquina fotográfica inventada que consegue fotografar hoje as ruínas futuras de uma cidade que ainda existe. Como se pudéssemos viajar no tempo e visitar as ruínas que todos seremos e que todas as cidades serão no futuro. E ao olhar esta fotografia do meu crânio sei que estas ruínas, os meus ossos, nunca poderão revelar a felicidade da minha vida. Tal como as ruínas de uma cidade serão sempre e apenas a versão triste e esbatida de uma cidade feliz e viva”.
Textos escritos por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.

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