Wednesday, October 03, 2007

O que queres ser quando já não fores grande?

Gerações e gerações, uma civilização inteira a trabalhar, ao longo dos séculos, para que um dia pudesse libertar-se do trabalho. E, no fim, quando a espécie estava praticamente a libertar-se da necessidade do trabalho, quando a tecnologia, a mecanização, a era digital estavam à beira de libertar-nos, descobrimos que o trabalho se tornou a nossa essência. O trabalho não é o meio de sobreviver, de nos afirmarmos ou de conquistarmos algo. O trabalho tornou-se “nós”. O trabalho é o fim. Trabalhamos para podermos trabalhar melhor. Somos o trabalho que temos e o modo como trabalhamos.
Já não nos perguntamos, como Santo Agostinho, “quem sou eu?”. Perguntamos “o que sou eu?”. E respondemos “contabilista”, “arquitecto”, “técnico de vendas”, “artista”, na desesperada esperança de estarmos a responder de forma objectiva a todas as incertezas, todas as subjectividades da pergunta de Santo Agostinho. Como se vivêssemos condenados à resposta que demos quando éramos crianças e nos perguntaram “o que queres ser quando fores grande?”. Como se o momento em que um adulto nos fez essa pergunta, provavelmente por não ter nada de mais inteligente para dizer, fosse o momento mais importante das nossas vidas. Como se fosse o momento que iríamos recordar na hora da nossa morte.
Eu sou artista. É a minha condição. Não diz muito sobre a minha natureza, mas é a minha condição humana. E mais do que qualquer outra condição, a do artista depende do trabalho. Porque se trata de um ofício e de um não-ofício. Porque o real e a ficção pertencem, no artista, à mesma esfera: a do trabalho. Porque, à diferença de outros, mantenho-me artista, mesmo enquanto durmo, mesmo enquanto como. Sou escravo desta profissão.
Mais do que qualquer outra actividade humana, a arte exemplifica a forma como o Homem se define pelo trabalho. Porque a arte era aquilo de que o Homem poderia usufruir quando se libertasse do trabalho. A arte era o fim último da humanidade. O plano era simples: trabalhamos até já nunca mais termos que trabalhar e depois dedicamo-nos à arte e às “coisas boas da vida”. Este era o plano no tempo em que também se pensava que podíamos fazer a guerra para nunca mais termos de fazer a guerra.
Hoje sabemos que a guerra e o trabalho são a nossa condição. Nós somos a guerra e o trabalho. Mas nesse tempo, pensávamos que, um dia, os únicos a trabalhar seriam os artistas e todos os que produzem apenas e só “as coisas boas da vida”, porque teríamos trabalhado o suficiente para podermos dedicar-nos apenas a usufruir da arte.
Neste tempo, em que somos o nosso trabalho, podemos ainda escapar, de forma pontual, a esta condição. A biologia permite-nos esses instantes de liberdade. Quando nascemos, podemos já ser filhos de um médico ou de uma cozinheira, mas não somos ainda nada. Estamos limpos de condição. Quando morremos, libertamo-nos também da nossa condição. Independentemente da qualidade do mármore na nossa lápide, são da mesma qualidade os vermes que se alimentarão da nossa carne. Na morte somos todos iguais, é costume dizer-se.
Agora, que estou nesta casa, rodeado destas pessoas que aceitaram trabalhar com um quase-morto, chego à conclusão que este projecto é, de forma talvez inconsciente, uma tentativa minha de recusar essa morte totalitária. Na morte, não serei igual. Serei ainda a minha condição, o meu trabalho. Como se o essencial da morte não fosse o meu desaparecimento, mas o acto artístico que a morte pode constituir. A minha morte faz parte do trabalho. Não é uma inevitabilidade da vida. É a forma que escolhi para parar de trabalhar.




Texto escrito por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.

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