Este é o meu quarto
Na minha máquina fotográfica digital está uma foto que tirei hoje. Documento jpeg número 116. É uma imagem do meu quarto. O colchão no chão, coberta com uma manta amarela. O velho piano em segunda mão em que as crianças desta creche martelam durante todo o ano. O velho piano agora finalmente em paz. Não me atrevo a sequer abrir a tampa para não perturbar o seu sono, que durará enquanto as crianças estiverem de férias. A minha mala branca, comprada numa feira de bugigangas em Berlim, semiaberta junto aos pedais do piano. O globo terrestre, no canto da foto. O globo que as crianças giram para depois para com um gesto súbito, curiosas por saber em que país desconhecido terá aterrado o seu dedo indicador. O globo com todos os países que elas sonham visitar. Durmo todas as noites rodeado de esperança. Para alguém que está prestes a morrer, é o maior dos sofrimentos. Mas o que é certo é que, todas noites, adormeço a sorrir.
Texto escrito por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.
Texto escrito por A no seu caderno de capa preta, durante os ensaios de A Morte do Artista, em 2006.

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